Friday, June 29, 2007

A vida de um rapaz pobre

Os trogloditas invadiram o seu cérebro. Ficou vazio e sem paciência. Cinema? Não tem paciência. Teatro? Não tem paciência. Queres umas calças pretas ou umas calças brancas? Não tem paciência. Esgota-se o pobre rapaz com tanta estabilidade e conforto. Quer aventuras radicais e sonha com aventuras delirantes em que ele, o herói, sai triunfante nos braços da multidão depois de salvar o mundo de uma catástrofe ambiental. Fecha os olhos e imagina-se nuam praia azul de areia cinzenta, com um vulcão em erupção ao fundo e vê-se flutuando por cima das cinzas, sem um arranhão, mas feliz por ter saído do seu cubículo. À noite, lê o Dilbert aos quadradinhos para se identificar com as desgraças dos colaboradores de outras empresas. As desgraças são sempre relativas, claro. Se não tivesse emprego, o nosso rapaz do subúrbio estaria bem mais infeliz, mas não estaria mais vivo? Mais criativo? Oh, sim, o carro, a casa, a comidinha, o seguro, o irs, o nosso pobre herói não foi preparado para as coisas do real quotidiano, pensou talvez que tudo seria mais fluido. Disseste fluido ou florido? Disse as duas coisas. Pensou ele. Que tendo emprego, não estaria a contar os tostões. Que, tendo casa, as suas conquistas amorosas iriam de vento em popa. Que, tendo carro, poderia passear-se pela marginal e os domingos não seriam vazios. Come chocolates, pequeno, come chocolates, não há maior metafísica do que comer chocolates! E ele come, pedaços gordos de chocolate negro de culinária, antes durante e depois das refeições. No dia seguinte, a rotina espera-o, pacata e serena. A segunda circular, o carro a pedir gasolina, as notícias da tsf, as politiquices do nosso pequeno rectângulo. O nosso rapaz fecha os olhos outra vez e olha para o relógio na esperança de que sejam seis da tarde. Mas não são.
Humm... E se fizesses uma informação? Um telefonema? Uma consulta de saldos? Uma combinação para café, chá ou laranjada? Não? Mmmmm.... E se fizesses uma pausa para KitKat? Não? Talvez Coca-Cola? Também não? E se fosses dar banho ao cão? Como dizes? Não tens cão? Bom, o teu caso é bicudo. Tens emprego, tens casa, tens companhia, tens amigos, tens saúde, tens música, tens livros, tens meias quentes de inverno e meias frescas de verão, que mais queres tu? pergunta-lhe o Coro, levantado e de cabelos eriçados e peito ufano, a roçar alguma impaciência.
Quero sentir-me vivo. Mas, principalmente, não quero nada do que tenho e quero tudo o que não tenho.

Sexta-Feira Santa

Chegamos finalmente ao último dia da semana. Hoje é o meu último dia com 34 anos.
E que faço eu com tantos anos? Circulo por aí. Tenho neuras e dúvidas existenciais como quando tinha 15 anos, só que agora tenho cabelos brancos e mais - bastantes mais - kilos.
Ah, trabalho, claro. No trabalho está a virtude, o trabalho é uma benção, explicam-me. Sim....o que não se faz para pagar a renda?
Por volta dos 30 - há quem seja precoce e descubra bastante mais cedo - compenetramo-nos que 1. não somos génios; 2. não vamos mudar o mundo; 3. a critatividade paga-se.
E assim o taxi vai correndo.

Wednesday, June 27, 2007

Achismo

Talvez acabem com a ADSE.
Talvez acabem com horários de trabalho.
Talvez se construa o Aeroporto na Ota, em Alcochete ou em Sintra.
Talvez haja referendo sobre o Novo Tratado da U.E. mas o que importa é que este se venha a chamar Tratado de Lisboa.
O Governo talvez adopte essas medidas ou outras.
Isso pouco importa.
Seja o que for que seja adoptado, a inércia reactiva é profunda.
Nos cafés e no trabalho ouço comentários convictos que isto - seja lá o que for - era necessário. Que é preciso pôr fim no regabofe.
Que se acabem as mordomias.
Que há muita malta aí que não quer é fazer nenhum.
Que é um escândalo.
Também acho.
Não sei porquê nem de que falam, mas onde acha um português acham logo dois ou três. Querem ver?
- Ó António, tu não achas que amanhã chove/faz sol?
- Sim, acho. Quer dizer, acho que pode chover ou fazer sol. Acho mesmo é que o meu salário é uma miséria e os políticos uma cambada.
ou
- Tu não achas que devia haver um referendo sobre swkhdkhjgfhroei?
- Acho! Acho isso e o contrário! Ah e os professores não fazem nada e os advogados são uns grandes malandros!
ou
- Acho que a Beltrana anda muito esquisita.
- Tens razão. Acho que lhe deu uma neura quando lhe mandaram uma notificação para pagar IRS por conta.
- Acho isso mal.
- Também acho.
ou
- Acho que vou almoçar.
- Acho que me vou embora.
- A que horas achas que chegas amanhã?
- Acho que amanhã devo chegar aí pelas 9 (grande mentira).
- Acho que acabei de furar um pneu.
- Não quero meter-me na vida das pessoas, deus me livre, mas acho que o Manel deu com a língua nos dentes.
Transe do achismo.
Acho bem.

Friday, June 15, 2007

zzzzzzz

Regresso ao burgo, depois de dez dias de ausência, que me pareceram 30 dias ou mesmo um mês. :) Aparentemente, a OTA vai ser em Alcochete, ou então a decisão foi congelada, não percebi muito bem, as notícias são sempre inseguras e imprecisas. O tempo está chuvoso, o ambiente laboral adormecido. O Governo chegou a acordo com um sindicato e ficou muito contente. Os professores parecem andar calminhos, deve ser do stress de se aguentarem com 950 Euros por mês, isso tira muita energia ao nativo. Uma amiga quer um emprego novo. Não queremos todos?
Novo jornal gratuito (o Meia Hora). Tento gostar de o ler mas é mais forte do que eu. Os artigos são iguais a muitos outros, o aspecto gráfico é menos agressivo. Ainda tem de encontrar um estilo, acabo por opinar. Perguntam-me pelo networking. Desculpa? Qual networking? Onde é que isso se compra?
Nadar, urge ir nadar.
Banco, empréstimo, prestação da casa que não para de subir, o carro continua a pedir gasolina, a roupa deixou de servir, o cabelo cresceu como vegetação, quero coisas positivas na minha vida e esbarro com a conta crédito ordenado, bendita seja.
Hoje, vou ver o novo espaço da Livraria Ler Devagar, na Fábrica Braço de Prata. Uma amiga vai lá expôr, valente, continua a trabalhar e a criar sem se amedontrar com as contas por pagar. Assim é que é!
Amanhã, bom programa: Magnificat, de Bach, Coro de Câmara da Universidade de Lisboa e Orquestra Sinfonietta de Lisboa, Igreja de S. Roque, 21H30.
Mais pensamentos vagos um dia destes.
Boa sexta feira a todos!

Monday, June 11, 2007

Canais de Leiden

Vim para Leiden estudar e pesquisar para a tese. Nome pomposo para dormir até ao meio dia, olhar fixamente para o écran da magnífica biblioteca, beber cerveja, dormir sestas e no final de uma semana reunir seis artigos, ler metade de um livro e ter ataques de nervos porque Leiden tem muitos canais. Canais que circundam a cidade e nos levam sempre ao ponto de partida. Leiden é uma cidade de estudo, de parco entretenimento, habitada por estudantes Erasmus e holandeses reservados que nos dizem sempre obrigada e enjoy! quando nos trazem uma sandwich de salmão com cream e bagel ou outra coisa qualquer igualmente nutritiva. Hoje B. levou-me ao supermercado de bicicleta sem travões e foi uma experiência de pânico e de euforia, em simultâneo. Senti-me quase integrada, numa bicicleta que já conheceu melhores dias, fazendo tchlac, tchlac, com um saco de compras na mão direita e desafiando todos os carros e peões, pois aqui somos reis e ninguém nos desobedece uma vez em cima de uma bicicleta. Ontem foi o Festival Internacional Cultural, passeei sem norte pelas barraquinhas da Albânia, Paquistão, USA, Indonésia, comi tudo o que me ofereceram e engoli um shot albanês para gáudio da menina vestida de trajes típicos e que me avisou oh it´s very strong. Era strong q.b. mas em Leiden nada acontece ao domingo à tarde por isso a seguir bebi mais duas cervejas e emborquei duas coca cola light por causa das calorias e a seguir atirei-me aos folhados gregos. Depois vim para casa, vi um filme, muito bom por sinal, thank you for smoking e voltei à festa. B. estava pronto para regressar a casa e tinha um crachá a dizer Cíntia, da Colômbia.
Leiden, cidade mágica.
Depois, Lx, Capital do Império.
Amanhã, quem sabe?